Este não é um pós-jogo

A quinta-feira de Américo Coelho já começou “quente pelando”. Um pique de luz noturno queimou seu rádio-relógio, que por 30 anos o acorda às seis da manhã, em geral com a voz de Bruno Azevedo, Alvaro Damião ou Ênio Lima. Mas hoje o cansaço da semana pesou sobre ele e acordou com o barulho do interfone quase às nove, aos sustos, com a voz mecânica informando que um oficial de justiça o aguardava com uma intimação. Lembrou-se de Simone, ex-esposa de mais de 20 anos, que se separava dele. Recebida a intimação, banho, roupas, chaves e um pingado na padaria perto do serviço. Mas tudo iria melhorar: Hoje tem jogo do Coelhão!

Theo era só felicidade naquela quinta.  Hoje era o dia. Já não aguentava a zoeira que seus colegas de colégio lhe aplicavam toda vez que o América perdia um clássico e no final do Campeonato Mineiro, chegou a ganhar uma suspensão por mandar um “Vai tomar caju, cachorrada!” na cara de um dos imbecis colegas. Mas aquele era o dia. Já esperava o que ia rolar no Decadentes do pós-jogo. Já se via desfilando na Educação Física da sexta-feira com a camisa verde e dourada de sua paixão. Ele e Vicente, a dupla de zaga coelhônica do Colégio.

Miguel Americano só conseguia pesar em duas coisas naquela quinta: as centenas de tarefas a serem feitas no dia e o clássico da noite. Acordou cedo e enquanto tomava banho, ouvia Bruno Azevedo na Itatiaia falar sobre o América e se animou. “Hoje é nosso!” Tomou café forte com uma broa regular, que lhe parecia excelente pelo amor com que Sônia, sua esposa, a fez. Chaves, carro, pasta e filho na escola, com a lembrança de que mais a noite tinha jogo. Ao chegar no fórum, despachou algumas intimações a uns pobres diabos e chamou Ricardo, colega de trabalho atleticano, para um café com resenha. Disse a ele: “Hoje é nosso!”

A Tarde

Américo entrou pela porta do trabalho às 11 horas, parcialmente por conta do ônibus que quebrou. A outra porção do atraso vinha da pouca vontade de chegar ao trabalho no banco. O colega já o encontra em tom de gozação na porta dizendo: “Boa tarde, Bela Adormecida!”. Outro colega comenta sobre a crise e de que um novo corte de funcionários está chegando. Pensa que empresas não tem coração, tem CNPJ. Com saudade do filho, que via muito pouco depois da separação, mandou um WhatsApp perguntando se queria ir no jogo. Um de seus poucos orgulhos era ter feito o filho americano, mesmo o tendo levado a um América x União Luziense pelo Módulo 2 do Mineiro. Recebeu um “joinha”, aquela mãozinha com um dedo levantado que diz quase tudo ou quase nada.

Na prova de matemática do dia, Theo se deu bem ao contrário de Vicente. Os dois estudaram juntos, mas algo parecia estar perturbando o colega, que parecia mais triste e arredio nos últimos meses. Combinaram de estudar na casa de Theo no Bairro Floresta e depois irem a pé pro jogo, afinal a prova de História da sexta prometia.

O dia de Miguel continuou ocupado, monótono e sem graça. Ocupado, monótono e sem graça até as 20:00. Basta essa linha.

A Noite

Américo saiu do banco o mais rápido que pode. Sua vida andava tão complicada quanto um quebra-cabeças sem cores. Ao passar em casa, uma mensagem do filho no WhatsApp:

“Passa aqui pra gnt ir p jogo mas n vem na porta n q a mamãe tá uma fera. Me espera na casa da vovó.”

A casa da mãe era perto de sua ex-casa e lá se encontrou com o filho e com o colega. Todo o dia está perdoado. Agora era Coelhão com o filho. O Atlético tem jogado conosco como um time do interior, nos contra-ataques, na covardia. Quem sabe não era hoje que o Judivan desencantava…

O estudo dos meninos se resumiu a falar do jogo e ver alguns vídeos sobre História do Brasil Colonial no YouTube. Theo estava feliz porque tinha sido aceito no grupo de WhatsApp dos Decadentes. Vicente nem se interessou. Foram para o jogo conversando sobre o Luan, Ademir Fumacinha e Enderson Moreira. História para eles agora só se falasse do Jair Bala, Pedro Omar e Juca Show.

Miguel saiu tarde do fórum e antes combinou com o filho para se encontrarem no Indepêndencia, pois o filho era ansioso demais para chegar em cima da hora. Gostava da conversa com os meninos da Barra UNA e de comer um tropeirão no capricho antes do jogo. Pensou que Ademir precisava entrar no lugar do Luan, mas que o Enderson tinha seus preferidos.

O Jogo

Américo é sócio-torcedor no Portão Minas. Como o filho e o amigo chegaram com ele e cada sócio podia trazer dois acompanhantes, botou os meninos pra dentro. Ao mesmo tempo que sai o primeiro gol dos canídeos, uma mão puxa com força o amigo de seu filho e Américo pensa: “Será que o colega é atleticano e comemorou?”

Theo e Vicente estão preocupados. O time parece nervoso. Quando acontece o um a zero, um grande susto.

Miguel chegou esbaforido ao Independência e quando já quase entrava no portão 4 com seu sócio VIP para encontrar com o filho, resolve checar o celular. Uma mensagem no celular dizia:

“Tô no 6 com a Barra UNA.”

Vicente se assustou ao olhar para cima e a mão que puxava sua camisa era a do pai:

– Por que você me fez vir no 6? Gosto de ficar no 4. A visão aqui é um lixo!

– Você veio porque quis. Já quase não te vejo mesmo, tanto faz portão 4 ou 6.

Miguel sentiu a ausência que vivia na vida do filho. O homem que estava junto a seu filho chega próximo para saber o que acontecia e se apresenta. Miguel e Américo conversam sobre o jogo. Um critica Jori, o outro Luan e ambos a Judivan.

Quando o segundo gol do lado presidiário sai, Theo Coelho olha para seu pai como se buscasse nele alento. Américo só tem a oferecer a frase “Vamos virar!”. No intervalo, Miguel e Vicente conversam apenas o essencial.

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Foto: Mourão Panda (@photompanda) / América MG

A esperança só precisa de uma fagulha. Nada mais adequado para trazer uma esperança que um Messias. O gol reacende a torcida e Miguel e Vicente se abraçam. O sonho de um gol redentor une o que a vida separa. O time parece encontrar nova vida em campo, com Ademir pouco acionado mas presente.

Quando o jogo acaba, Américo, Miguel, Theo e Vicente se despem da magia da futebol e todos voltam a realidade. Américo leva o filho Theo a pé até a casa da vó, onde fica vendo o filho acabar de chegar em sua própria casa e doma a vontade de botá-lo pra dormir, mesmo que não tenha feito isso desde que era bem pequeno. Miguel e Vicente estão um pouco mais unidos, mesmo que pela revolta de perder mais um clássico. Amanhã é um novo dia e talvez um dia menos ausente.

Sobre o jogo mesmo, tenho pouco a dizer e disse através dos personagens. Queria sinceramente que nos próximos clássicos, nosso time pensasse nesse texto e no quanto poderiam ter escrito um final melhor.

Continuo apoiando o grupo e o técnico, mas é preciso rever seriamente a vontade demonstrada pelo time em clássicos.

Jairo Viana
twitter.com/jairovianajr


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Créditos da foto de Capa: Mourão Panda (@photompanda) / América MG

 

9 comentários sobre “Este não é um pós-jogo

  1. Oh Jairo. Se é que tem alguma coisa boa de jogo e Coelho hoje é esse seu texto. De quebra ainda me vi em alguns desses seus personagens. Parabéns pelo texto e pelo trabalho do Decadentes.

    Curtido por 2 pessoas

  2. Parabéns pelo texto! E pelo trabalho do Decadentes também. Como comentei hoje no programa: América é o desfibrilador das Frangas. Sempre ressuscitando…..

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