Retrospectiva 2019

O ano de 2019 já está com seus dias contatos, e como torcedor americano podemos dizer que este ano foi uma montanha russa de emoções. Fomos do otimismo ao pessimismo diversas vezes e não é nem preciso lembrar que o fechar das cortinas da nossa temporada foi das mais cruéis… E agora que a poeira já abaixou e se é possível racionalizar a dor da partida contra o São Bento, vamos tentar fazer uma análise desse ano multipolar. 

Marcus Salum durante entrevista coletiva no CT Lanna Drumond – Foto: Estevão Germano / América

Em entrevista a Itatiaia na semana passada, Salum avaliou muito positivamente a temporada do América, voltou a reforçar as dificuldades orçamentarias que temos, e etc. Um pouco do discurso de sempre, enaltecendo o trabalho do segundo semestre e dizendo que o planejamento para este ano era de fazermos uma Serie B digna, e como não conseguimos o acesso por muito pouco, ele avalia que o ano foi até um pouco melhor que o planejado. Será? 

Bem, que de fato o acesso parecia extremamente improvável no final do primeiro turno do Brasileirão deste ano, não se tem dúvidas. Entretanto, em entrevista realizada em abril, o mesmo Salum esbanjava otimismo com o acesso, chegando até a dizer “subir o América consegue sozinho”. E se levarmos em consideração que tínhamos a quarta maior folha salarial (empatados com o Sport), podemos sim afirmar que se montou este elenco pensando em subir de divisão. Confira aqui o ranking das folhas de pagamento. 

E se julgando que o planejamento então mirava o acesso, foi este planejamento bem feito? 

Eu penso que não.  

Givanildo Oliveira e Marcus Salum durante apresentação no CT Lanna Drumond – Foto: Mourão Panda / América

O planejamento de 2019, para mim, já começou errado em dezembro do ano passado, quando logo após o fim da Série A renovaram o contrato do Givanildo para que ele comandasse o time neste ano. 

Givanildo Oliveira durante treino na manhã de quarta-feira, 24/4/2019, no CT Lanna Drumond – Foto: Mourão Panda / América

Eu sou fã do mestre Giva, sou extremamente grato a tudo que ele fez pelo América nas suas diversas passagens por aqui. E compreendi a sua contratação para os jogos finais do ano passado uma vez que ninguém mais toparia pegar aquela barca por apenas 5 jogos e topando uma remuneração dentro do nosso orçamento. Até mesmo porque ali na reta final já não havia mais tempo para treinamentos e aprimoramento tático, iria na conversa e motivação, o que ele é bom. Mas dizia naquele momento que independentemente se ele conseguisse ou não nos salvar, que se fizesse uma estátua para ele e buscássemos alguém mais atualizado e adequado ao cenário atual do futebol. 

Mas optaram por renovar e apostar na mística pecha de Rei do Acesso que ele consigo traz. 

Felipe Conceição, Givanildo Oliveira, Marcus Salum e Gerson Rocha durante treino na manhã de sábado, 12/1/2019, no CT Lanna Drumond – Foto: Estevão Germano / América

Outro erro foi não se ter buscado um Diretor de Futebol com a saída de Tião Drubscky. Quando da oficialização de sua saída para ser treinador da Tombense, nosso departamento de futebol ficou sem um responsável técnico.  

Neste momento se juntaram duas coisas bastante datadas atualmente, um presidente atuando muito ativamente no planejamento do futebol e um técnico com uma maneira de trabalho mais centrada em si.  

Esta combinação não causaria espécie na década de 90, ainda era comum na primeira década deste século, mas faz alguns anos que se datou. Hoje é necessário ter um departamento de futebol com profissionais qualificados, alguém que consiga dialogar com departamento de scouting e análise, que tenha claro um planejamento para o time no escopo que envolva as filosofias de jogo e metas de desempenho, e que trabalhe para tornar isto possível, desde a definição de treinador, da busca pelos jogadores mais adequados para o projeto, a cobrança e mediação com treinador e jogadores para que os objetivos sejam alcançados e possíveis correções de curso durante a temporada. 

E isto faltou. E como faltou. 

Diego Jussani e Leandro Silva durante apresentação, na tarde de sexta-feira, 11/1/2019, na sala de imprensa Paulo Papini, no CT Lanna Drumond – Foto: Mourão Panda / América

Ainda que me lembre que as contratações feitas no início da temporada estavam deixando todos otimistas, eram jogadores com certo renome, bastante experiencia no currículo, mas também de mais idade. Toscano (34 anos), Joao Paulo (33 anos), Berola e Azevedo (32 anos), Belusso, Leandro Silva e Diego Jussani (31 anos) e Viçosa (30 anos). 

Destes a maioria já chegou no time de titular de Givanildo, que juntamente com Fernando Leal (38 anos), Paulão (33 anos) e Juninho (32) formavam uma equipe titular com uma média de idade muito elevada, apesar das presenças de Matheusinho e Zé Ricardo. 

A avançada idade do elenco aliada a filosofia do Givanildo de não poupar jogadores gerou desgastes nos atletas, e não ter rodado o elenco acabou por não dar rodagem a jogadores da base durante o mineiro, bem como não permitiu ver outras formações ou testar pecas que deveriam ser reforçadas para a série B.  

Acabamos por pagar o preço por não ter um Diretor ali para mediar as ações e cobrar Givanildo, e acabamos por perder nas semis do mineiro sem oferecer resistência ao Cruzeiro, caímos cedo na copa do Brasil para o Juventude, depois de sofrer contra o poderoso São Raimundo e, após dois tropeços na Série B o trabalho de Givanildo se encerrou. 

Marcus Salum e Maurício Barbieri durante apresentação na manhã de terça-feira, 7/5/2019, na sala de imprensa Paulo Papini, no CT Lanna Drumond – Foto: Mourão Panda / América

Depois da saída de GivaMito, veio a vez do biscoiteiro. Em uma nova entrevista nesta semana, Salum disse que o trouxe por ser um técnico preparado, com boa passagem pelo Flamengo e métodos novos de trabalho, e ali soubemos que lhe foi dada carta branca para comandar o América ao seu estilo, trouxe os jogadores que pediu, afastou quem ele não gostaria de contar, entretanto os resultados não vieram. 

E depois de uma curta passagem 7 jogos, com 1 vitória, 2 empatas e 4 derrotas, sendo a última uma humilhante goleada para o figueirense em casa. 

Novamente, nos faltou um Diretor de Futebol neste momento. A ruptura de estilo de jogo e métodos de trabalho entre Giva e Barbieri foi brutal. Não houve uma linha de trabalho a se seguir, bem como não houve quando se anunciou o Tigrão para o lugar do Biscoiteiro. 

Marcus Salum e Paulo Bracks, novo Diretor de Futebol Profissional do América – Foto: Mourão Panda / América

Fomos ali uma nau à deriva, e os rumos estavam sendo tomados pelas marés de pensamento do Salum, não por um comando técnico que sabia o que queria e aonde chegar. Tudo bem que desde maio o Bracks já ocupava o cargo de Diretor, ele foi promovido ao cardo próximo do anúncio do biscoiteiro, mas a participação dele foi muito pequena em qualquer escolha até ali.  

Por sorte, a escolha mais controversa deu certo. Deu certo muito mais por sorte que por juízo, mas funcionou para tirar o time da lanterna, nos livrar de um rebaixamento que a muitos assustava e nos fazer acreditar em algo mais. 

Felipe Coneição durante duelo entre Cuiabá-MT e América – Foto: Daniel Hott / América

Uma pena que no final faltou um pouco mais de competência, faltou competência para dar ao time mais possibilidades táticas e ao nosso ataque mais tramas ofensivas e poder de criar mais jogadas. Foi o que nos faltou na reta final em que estávamos dependendo quase que exclusivamente que bolas paradas para anotar os gols. 

Faltou competência também para motivar os jogadores e os preparam para os últimos jogos em casa, uma vez que empatamos com uma ponte muito desinteressada, perdemos para nosso algoz Paraná e por fim fomos derrotados pelo São Bento, que no momento era lanterna da competição. E aí não tem desculpa de mala branca, uma vez que dinheiro pode motivar, mas não traz qualidade.  

Marcus Salum e Felipe Conceição durante entrevista coletiva no duelo entre América x São Bento-SP – Foto: Mourão Panda / América

Se fosse para analisar a temporada, diria que ela em si foi ruim. O planejamento para ela como um todo foi ruim. As promessas feitas em entrevistas no final de 2018 de utilizar mais a base no início do ano não se cumpriram, aliás, a base mesmo só foi ser bem utilizada com o Tigrão já na reta final. 

O que poderia ficar de lição é a de que hoje em dia tem de se ter uma maior profissionalização do futebol, que um dirigente estilo anos 90 que se acha infalível e toma para si o controle das ações. É preciso delegar, e delegar para profissionais capazes dentro de um departamento de Futebol profissionalizado.  

Treino no CT Lanna Drumond – Foto: Mourão Panda / América

Quanto a isto nos resta aguardar, ver se o Paulo Bracks é realmente o dirigente que capaz que a tantos encanta. Ver se ele terá a competência e a liberdade necessária para traçar uma direção para a temporada, e acompanhar o processo todo, avaliando o desempenho a agindo para que as metas sejam cumpridas.  

No momento isto parece difícil, uma vez que na última entrevista do Salum ao Superesportes ele voltou a bradar sua competência em fazer futebol com poucos recursos, reforçou cada decisão tomada no planejamento para a temporada como a acertada para cada momento e culpou falta de sorte para o não acesso. E novamente volta a prometer que a base será a base para o início do trabalho para a temporada e que vamos entrar na série B brigando pelo acesso, apesar das dificuldades orçamentarias. Com toda a sua pompa de vasto conhecedor do futebol e da Série B. 

A nós, torcedores, só nos resta esperar que 2020 seja um ano mais tranquilo, que o planejamento para este ano de certo e o time volte anos encher de alegria e orgulho, e que possamos quem sabe beliscar um título… Afinal, somos América e temos sempre de acreditar… 

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