A Imagem – Por Marinho Monteiro

Essa imagem, antes de tudo, mostra um placar eletrônico indicando 1×1 entre América e Atlético.

Em seguida, como um tsunami, uma multidão digna da fuga dos hebreus do Egito nos primórdios da humanidade. Aquele barulho contra me fez ser quem eu sou. Lutar contra o óbvio, o poder dos fracos que se escondem numa maioria sedenta, naquele que “acha cômodo torcer” para um time de investimento milionário. O barulho ensurdecedor que queria me jogar pra baixo. Da vida, da desestrutura. Da luta de ter de ficar anos no interior mineiro atrás de emprego para me sustentar.

Na volta, anos depois, ver que família e amigos não são mais os mesmos. Claro. Estão certos. Não se deve permanecer anos como o “mesmo”. Muitas pessoas achariam isso uma virtude. Talvez a mudança canalizada na evolução da pessoa é que realmente resuma algum parâmetro de que ser bom possa nunca ser um ponto fixo e sim, um degrau para ser ainda melhor. Essa imagem me faz ser forte, a ter aguentado muita indiferença, incerteza, ingratidão e toda e qualquer desproporção. Em saber que estou longe de poder ter sobriedade de um caminho definido.

Queria ter tido mais paz .A ter conseguido algumas coisas sem ter tido tantas perdas ou com menos sacrifício. Saio do senso comum ao não seguir os que dizem que a luta recompensa. Chego cansado. Tento não olhar pra trás. Mas essa imagem está lá. Me acompanhando desde os 6 anos de idade, a quase 40 anos, quando um foguetório no Mineirão me fez agachar de medo e quase ser pisoteado pela minha torcida, salvo rapidamente pelo meu padrinho Tilu, o meu primeiro tutor no campo. Sei que ela, essa imagem, vai embora comigo. Talvez eu parta lá mesmo, diante dela num clássico. A emoção já me canalizou para muitas formas de ação naquele gigante de concreto, que tanto sofri, chorei, me defendi e aprendi a suportar todo o tipo de revés. Não gosto de você Mineirão, mas aprendi que nunca irá me deixar pela memória da minha alma.

Essa imagem não me lembra somente dor. Me traz alegrias alucinadamente explosivas. Me faz respeitar eternamente o campeonato mineiro. Aonde o termo contra tudo e contra todos nunca fez tanto sentido. Foi ali que vi que a justiça dos homens é conivente e relativa aos pesos estipulados pela própria natureza humana. Abstratos ou concretos. Irei lhe ver novamente. A cada vez que fechar meus olhos de forma mais reflexiva. Para seguir um dia após o outro. Por todo o limitado e terminável do “meu sempre”, da minha história. Até o além.


PS. Após ler, imagine o coro do Mineirão, em “galo”, o concreto mexendo e subindo pó, e um Gutemberg, Claudinei ou Dudu com a bola dominada partindo pra cima, asa aberta, dando porrada em cima e conduzindo embaixo, ignorando a massa. Por toda a vida. América.

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